segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Prefácio

Uma vez, em uma madrugada de insônia, ouvi uma canção cujo refrão dizia: “Meu coração é uma cidade fantasma”. De princípio me identifiquei com a letra. Como poderia meu coração ser outra coisa que não uma cidade, um país ou um mundo inteiro fantasma? Depois de tantos dias de isolamento na infância, na adolescência e na vida adulta, eu, o dono de um universo particular protegido por uma grande e densa bolha de silêncio e solidão, poderia ter no lugar do coração algo diferente da entrada para uma dimensão fantasmagórica?


Fonte: Literary Hub



Não sei, havia algo escondido. Porque, por mais que eu me identificasse, ou quisesse me identificar com a canção, algo não condizia. Quando se é dono de um coração que é uma cidade fantasma, pensava eu, não havia nada com o que se preocupar a não ser esqueletos, poeira e ruínas. Não há nada a perder. Mas eu sentia que havia muito mais que isso em meu coração, apesar das tentativas de ser mais forte, bravo, duro... A reflexão me levou a perceber meu coração de uma nova perspectiva. E enxerguei, em meio ao vermelho, faces pálidas de azul, agressivas cores verdes resistentes e tons terrosos amáveis.

Pensei no menino pobre, filho caçula e temporão de um casal paulista que veio desbravar o Mato Grosso. O menino quieto e imaginativo, o primeiro mato-grossense da família, nascido em uma cidade engolida chamada Pedra Preta. Uma criança que passava horas sozinha desenhando figuras imensas e complacentes no chão do quintal com um pedaço de galho. Uma criança que não conseguia se adequar ao modelo de menino lutador, jogador de futebol chegado a brigas de rua e a estilingues.

Uma criança que começou desde cedo a colocar na mochila pequenos segredos importantíssimos, lampejos diminutos de entendimento de mundo e muita fantasia.

Pensar no menino me levou a pensar também no adolescente torto que ele se tornou, sujo de pó de serra, que, em uma cidade do Nortão do Mato Grosso, Apiacás, procurou deslizar para fora de sua infância quase eterna e ser um pouco menos aquilo que lhe pesava nos ombros: um rapaz crescido que preferia ficar em casa, enfurnado nos livros. E nessa fuga, esse adolescente, aos 14 anos, arrumou um emprego de ajudante de marceneiro e passou a conviver com o medo das serras, a pegar muito peso e a passar horas lixando e envernizando móveis enquanto pensava nas tramas e nos personagens que depois iria colocar em cadernos.

Brotou também de minhas memórias o adolescente mais velho, que, de volta à cidade natal, começou a trabalhar em uma lanchonete e lá recebia pedidos, preparava lanches, cuidava do caixa e servia mesas. Um garoto que cheirava a hambúrguer e detergente. E que durante dois anos aproveitou os momentos de sossego para ler os tão queridos livros de ficção, viajando pelos caminhos oferecidos por homens e mulheres com segundas intenções. Caminhos estes que levaram o adolescente às portas da universidade. E de uma nova vida.

Naquele tempo, as coisas flutuavam. As coisas estavam desligadas e flutuavam, pairavam em torno da cabeça do adolescente, como planetas fora de suas órbitas. O chão em que o adolescente-menino pisava era trêmulo. Meu Deus, como as coisas nunca paravam de se mexer! E como tudo às vezes parecia tão estático. Grandes olhos e bocas por todas as partes. O adolescente, agora adulto, tinha certeza de que vivia em cenários vacilantes lançados ao vazio do espaço sideral.

A sala de aula na universidade era apenas um cenário e ele interagia com pessoas muito distantes, intocáveis. Tudo era fingimento e por trás das paredes não havia nada. A paisagem vista pela janela era alucinação.

Eis agora um homem adulto? Um jovem? Um híbrido? Não mais cadernos, agora blogs na internet. O primeiro blog surgiu na terça e se chamou Abismo Maldito. O segundo surgiu na quarta e se chamou Garoto Mal-Intencionado. O terceiro surgiu na quinta e foi chamado de Absoluto Dom de (In)Existir. O quarto surgiu na sexta e o chamavam de Narciso Prostituído. O quinto surgiu no sábado e foi chamado de Jefferson Reis. O sexto e último surgiu no domingo é se chama Jefferson A. Todos esses blogs, com exceção do último, morreram queimados ou afogados.

O Curso de Letras proporcionou ao homem a oportunidade de mergulhar mais fundo e de novo. E ele guarda boas e más lembranças dos quatro anos em que viveu tais letras, que o fecundaram e o adubaram, é verdade, mas que também o presentearam com ervas daninhas diabólicas e irresistíveis. E então o trabalho na escola. Professor de Língua Portuguesa. O professorzinho, como alguns o chamavam. Hoje sorrisos, naquela época, lágrimas e muita preocupação.

Isso me traz à mente, ainda, o homem perdido que se seguiu. Uma fuga para a cidade vizinha. O que você queria calar, rapaz? Quais vozes lhe falavam apenas em sua cabeça? Por que você nunca se endireitou? Por que nunca se livrou dessa tristeza? Por que você a dissimula? Três anos trabalhando em uma livraria no shopping. Tantos livros, tantas histórias, quantas coisas acontecendo em seu mundo particular e o quão pouco aconteceu nos seus dias de fora. Vendedor de livros, livreiro. Pessoas, desespero, um namorado, falta de ar. Um questionamento: por que existo?

E se ele se reinventasse?

O Curso de Psicologia veio com um pouco de medo e bastantes incertezas. O homem-menino sentia como se estivesse traindo seus antigos sonhos das palavras. E não sabia nada sobre Psicologia. O que era? O que fazia? Por que não tentar? Como primeira opção no ENEM arriscou um curso de Edição de Livros em Santa Maria. Nos últimos minutos, porém, mudou para Psicologia. O que ele estava fazendo? Era o momento de outra graduação? Seu tempo não havia passado? Ele não precisava dar ao mundo uma resposta rápida? E útil?

A Psicologia se mostrou algo tão maior e mais complexo do que o menino imaginava que ele se pegou olhando para o abismo. E quando se olha para o abismo, o abismo olha de volta para você. É o que diz Nietzsche. Pela primeira vez o homem quis. Descobriu-se lutador, mas de uma maneira diferente daquela que lhe era cobrada quando criança. Ele estava fazendo algo e dessa vez pensando nele, na vida dele, e não no silêncio do mundo.

A Psicologia é um passeio entre árvores ancestrais. E o homem caminha descalço, seus pés são perfurados e seu sangue encontra a terra. Há pedras e musgos no meio do caminho, folhas de relva, aromas doces e cítricos, muitas cores, sombra e sol.

Foi revelado então que, no coração do menino, que é o meu coração, há esqueletos, poeira e ruínas, mas o verde caótico e as cores esquizofrênicas crescem sobre tudo isso. Os arbustos tomam conta, as trepadeiras anseiam as estrelas, as flores sorriem caprichosas, as plantas aquáticas escondem as profundezas, sapos coaxam, pássaros cantam, o vento quente sopra e brilha... O menino-adolescente-homem contempla e eu digo:

MEU CORAÇÃO É UM JARDIM SELVAGEM!



Fonte: Kiss ClipArt

2 comentários

© Jefferson Adriã Reis
Maira Gall